Arquivo mensal: novembro 2005

Zumbi está vivo, o quilombo é aqui!

[texto nosso publicado no Diário da Manhã de ontem]
Diversas manifestações movimentam o mês da Consciência Negra em todo o país. Maranhão leva trezentos à Marcha Zumbi + 10 em Brasília, no próximo dia 16/11. Pólos, em São Luís e Paço do Lumiar, promovem atos para a leitura de cartas de reivindicação.
Diversas entidades do movimento social preparam-se para celebrar, dia 20 de novembro próximo, o Dia Nacional da Consciência Negra. A data, já tradicionalmente festejada pelo Movimento Negro, esse ano ganha forças: seu maior ícone, o líder Zumbi dos Palmares, assassinado em 1695 pelas tropas do governo colonial brasileiro, chega aos 310 anos de imortalidade.

Na próxima quarta-feira, 16/11, acontece em Brasília/DF, a Marcha Zumbi + 10, que levará até a capital federal as reivindicações da população afrodescendente, visando, principalmente, a aprovação do estatuto da igualdade racial. A delegação maranhense é composta por trezentas pessoas, eleitas em atividades prévias à realização da manifestação. Estas atividades aconteceram através da reunião de várias entidades: Centro de Cultura Negra (CCN/MA), Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), Pré-Vestibular para Negros e Carentes (PRENEC), Grupos de Mulheres Negras Mãe Andresa, Grupo de Dança Afro-Malungos (GDAM) e Conselho Municipal das Populações Afrodescendentes (COMAFRO).

Após a realização da Marcha Zumbi + 10, em Brasília, as celebrações/reivindicações continuam, localmente, em cinco pólos das periferias de São Luís e Paço do Lumiar, que estão organizando uma série de atividades alusivas ao dia da consciência negra. São eles: Coroadinho, Divinéia, Itaqui-Bacanga e Liberdade na capital; e o pólo do Maiobão, em Paço do Lumiar. (veja abaixo locais e horários das atividades). Os pólos farão a leitura de cartas de reivindicação específicas, que serão entregues dia 21/11 na Assembléia Legislativa e Governo do Estado do Maranhão, além das Câmaras e Prefeituras Municipais de São Luís e Paço do Lumiar.

“Pelo Direito à Vida” é o principal grito dessas manifestações, tendo em vista a situação das populações pobres e negras do estado, massacradas diariamente pela ausência de políticas que possibilitem educação, cultura, saúde, esporte, lazer, oportunidades efetivas de geração de emprego e renda, acesso à terra, moradia digna, saneamento básico e, principalmente, garantia de respeito à diversidade étnico-racial, cultural e religiosa.
Locais e horários dos atos nos pólos

Coroadinho: Praça do Coroadinho, próximo à Fundação Bradesco, 16h.
Divinéia: Avenida Brasil, ponto final da linha de ônibus, 16h.
Itaqui-Bacanga: Praça Viva Vila Embratel, 16h.
Liberdade: Concentração para a Marcha: Praça da Fé em Deus às 14h. Ato-show Zumbi + 10: Praça Mário Andreaza, final da linha de ônibus, às 19h.
Maiobão: Associação de Moradores do Residencial Zumbi dos Palmares, 17h.

O Túmulo de Merneptah

[Matéria publicada no Jornal Pequeno/S.Luís-MA, em 6/11/2005. Disponibilizada pelo autor para divulgação]

O projeto de um deputado maranhense que reintegra o Convento das Mercês ao patrimônio público deverá ser votado a qualquer momento pela Assembléia Legislativa do Maranhão. Relíquia do séc. XVII inaugurada pelo Pe. Antônio Vieira, o prédio colonial foi grilado em 1990 pelo senador José Sarney, que ali decidiu construir o seu próprio mausoléu – o que motivou o repúdio da população de São Luís e uma ação do Ministério Público Federal.

por Cesar Teixeira *

A vaidade de José Sarney tornou-se faraônica morbidez quando ele decidiu se apropriar de um prédio do séc. XVII que pertenceu à Ordem dos Mercedários, no centro histórico de São Luís, para ali construir o seu mausoléu e dar continuidade ao delírio da oligarquia. Assim, após sua morte, eleitores desenganados e fiéis puxa-sacos para lá levariam ex-votos e círios, quitando as promessas feitas àquele que a si próprio beatificou para perpetuar-se num trono de mármore. Causa mortis: apoplexia por abuso de ato ilegal.

O Convento da Assunção da Real e Militar Ordem de Nossa Senhora das Mercês e da Redenção dos Cativos foi inaugurado em 1654 pelo Padre Antônio Vieira, missionário jesuíta que haveria de enfrentar a fúria da Inquisição, citado pelo Papa João Paulo II em sua homilia quando passou pelo Maranhão há quatorze anos: “Este monumento nos lembra um dos marcos fundamentais da evangelização na América Latina”.

Lá também funcionou o Pequeno Seminário de N. S. das Mercês na segunda metade do séc. XIX. O prédio, medindo na época 5.605 m2 de área construída, foi vendido ao Estado por quatro contos de réis, em 1905, aquartelando a Polícia Militar por várias décadas, e, desde 1974, está no livro de tombos do Patrimônio Histórico da União. No fim dos anos 80, depois 9,5 milhões de dólares gastos na sua restauração, o governo doou ilegalmente o imóvel à Fundação da Memória Republicana, criada em fevereiro de 1990 por Sarney, às vésperas de devolver a faixa presidencial.

Queria voltar com cetro de ouro, feito um novo Merneptah, o Faraó do Êxodo (no Egito eram os hebreus, no Maranhão são os trabalhadores rurais que fogem da fome e da escravidão instituída pela dinastia Sarney).

Com o aval da Assembléia Legislativa – que aprovou em 1990 e 1993 as leis forjadas nos governos Cafeteira, João Alberto e Lobão –, a Fundação José Sarney recebeu de mão beijada, e sem contrapartida, um monumento colonial recuperado com dinheiro público para depositar um acervo de envergadura, que traz agregado restolhos da Nova República, objetos pessoais e álbuns de família, obtendo ainda do Estado uma subvenção de 80 mil reais por mês.

Sem falar nos prêmios do orçamento federal despejados diretamente em sua cripta; nas festas juninas da Vale do Rio Doce (Projeto “Vale Festejar”) e do Banco do Brasil para o marketing político da filha Roseana Sarney, e no aluguel do Convento das Mercês para shows, festivais e até casamentos, sem qualquer prestação de contas – segundo tabela vigente, o aluguel para uma festa de casamento, por exemplo, custa até R$ 6 mil reais.

Ali também foi realizada a mostra “Brasil 500 Anos”, administrada pela empresa Brasil Conection, do banqueiro Edemar Cid Ferreira (Banco Santos), padrinho do casal Roseana-Jorge Murad. Vale ressaltar que a Fundação José Sarney é dirigida por uma associação formada por parentes, amigos e correligionários de Sarney, que é o seu presidente vitalício.

LUTA PELO RESGATE

Após longo silêncio da imprensa e das autoridades, o Ministério Público Federal ajuizou em agosto de 2004 uma Ação Civil Pública pedindo a reintegração do prédio ao patrimônio estadual com base em decreto-lei de 1937, que impede a doação de bens tombados pela União a instituições privadas. Na Assembléia, o deputado estadual Aderson Lago (PSDB-MA) apresentou projeto revogando as leis que transferiram o Convento para a Fundação José Sarney, violando a Constituição do Estado.

O projeto recebeu parecer favorável na Comissão de Constituição e Justiça, devendo ser colocado na pauta de votação do Plenário a qualquer momento.

Há poucos dias, vassalos do Faraó chegaram a mobilizar incautas crianças e mães do bairro do Desterro, onde está localizado o Convento, para protestar contra o projeto de Lago em frente à Assembléia, alegando que sua aprovação inviabilizaria os programas culturais da Fundação José Sarney – tudo divulgado pela TV Mirante, propriedade da dinastia. Circulou ainda um manifesto de igual teor assinado por intelectuais e artistas amigos do “estadista” fora-da-lei.

Não falaram dos tapumes colocados numa rua ao lado, segundo denúncias, para ampliar ilegalmente os limites do imóvel, cujo pátio hoje serve de estacionamento privativo para um restaurante pertencente a Jorge Murad e à senadora Roseana Sarney, pondo sob suspeita os objetivos da Fundação.

Caberia então ao governador José Reinaldo, após a devolução do prédio ao Estado, manter em atividade a Escola de Música do Bom Menino, que funciona lá, e já recebe apoio do Poder Público. Desde que administrado democraticamente, o Convento das Mercês pode ser otimizado como espaço cultural para abrigar projetos comunitários, bibliotecas, exposições, concertos, oficinas profissionalizantes, seminários, espetáculos etc. Sem desfigurar as manifestações folclóricas (manipuladas para fins eleitoreiros) e privilegiar igrejinhas.

O que não tem sentido manter é a Fundação José Sarney, ou a “sua” Memória Republicana. O senador tem que procurar outro canto para guardar seus mimos e construir mausoléu. Por que não a ilha de Curupu? O museu republicano, por sua vez, seria mais adequado ao Distrito Federal, talvez ao Rio de Janeiro, por razões históricas. De qualquer forma, vários articulistas posicionaram-se nacionalmente contra a apropriação do Convento pelo oligarca.

VOZES DO ALÉM

No artigo “Vontade de Liberdade”, publicado no jornal O Globo (Opinião-12/03/05), Luís Carlos Prestes Filho, coordenador do Núcleo de Estudos da Economia da Cultura da PUC-Rio, exalta a arquitetura do Convento das Mercês, mas protesta contra a “grilagem” de espaço público para a construção, ainda em vida, do mausoléu para José Sarney. “Túmulo nada humilde, se comparado às lápides de chão doadas por benfeitores de antigas igrejas e catedrais”, escreve.

Quando esteve recentemente em São Luís para a I Conferência Municipal de Cultura, Prestes Filho observou, com ironia: “No mesmo momento em que na Rússia se faz um movimento para deixar Lênin no seu mausoléu, aqui no Maranhão o movimento é para tirar Sarney do seu”.

Essa indignação além-fronteira ratifica por que centenas de estudantes, no final de janeiro, carregaram em passeata o caixão dos 40 anos da oligarquia, fazendo o seu enterro simbólico no portão do Memorial José Sarney. Aliás, o fato de pôr seu nome em tudo – pontes, tribunais, viadutos, escolas, praças, ruas, avenidas e creches – revela uma obsessão doentia da família em eternizar suas máscaras terrenas, burlando leis e fabricando méritos.

Desta vez a dinastia pretende transformar um monumento público de 351 anos em cemitério particular, antecipando banquetes fúnebres, enquanto uma população de 68, 42% de miseráveis jaz faminta, sem terra, emprego ou escola, em guetos e favelas – muitas delas com nomes da família Sarney. População que constitui a base da triste pirâmide social que o Faraó ajudou a construir em 40 anos, e no alto da qual pretende reinar para além da morte.

A falta de ética política e a extensa folha de maldades provam que Sarney é, e sempre foi, o seu próprio túmulo. Se ele não for duplamente sepultado nas Mercês, o risco que corre o povo de São Luís é cruzar todas as sextas-feiras com uma múmia enlouquecida, assombrando a cidade no velho Galaxie Landau de 199 cavalos herdado do regime militar, depois de ter cassado o mandato de Ana Jansen e levado sua carruagem de bestas decapitadas para um desmanche.

Cabe ao parlamento e à justiça exorcizar esse fantasma. Ou teremos que invocar o Padre Antônio Vieira, inimigo nº 1 das mentiras que se abateram sobre o Maranhão como pragas do Egito, cobrindo-o de trevas por mais de três séculos. Para a redenção definitiva dos cativos, não faria mal um novo puxão-de-orelha (com sermão e tudo) no tubarão mercenário, o dono do mar – qui devorant plebem meam –, antes que desapareça no lodo dos subterrâneos.

*Poeta e Jornalista / DRT-MA nº 788
contatos: cesarte@elo.com.br

Deu no JB de 4/11

Publicado na coluna Supersônicas, assinada por Tárik de Souza:

Dica de disco

Um dos fundadores do movimento Laborarte, autor de vários sambas-enredo da principal escola de samba de São Luís, a Turma do Quinto, o maranhense Cesar Teixeira, 52 anos, estréia sua versatilidade em Shopping Brazil. Intercalando composições agudas (Ray ban) e líricas (Met[amor]fose) com vinhetas folk (”Nós vem de areia branca/ nossa canoa é o mar”, de Dona Elza, da Dança do Caroço, de Tutóia), Cesar costura tradição e invenção.

O Cabra

depoimento de José Patrício Neto (link ao lado, de volta à blogosfera, via orkut)

José Maria Ribeiro Jr., o Zema, traz na alcunha a ternura das amas-negras de Gilberto Freyre , que fizeram com as palavras o mesmo que com a comida: machucando-as, tirando-lhes as espinhas, os ossinhos, as durezas; só deixando para a boca do nhonhô as silabas moles.

Daí esse nosso português de menino do norte, sem rr, sem ss, as sílabas finais leves e palavras que só nos faltam desmanchar-se na boca. Faça-se justiça! a “ama negra” de Zé Maria foi Gildomar Marinho que lhe domou o antigo nome, ofertando-lhe lindo poema, rebatizando-o Zema.

Zema é desses caras que nos ganham fácil. Em meia hora de conversa, em meia dúzia de e-mails é nosso amigo de infância.

Será o cabra: um falso. Eu afirmo que não. Longe disso, sua delicadeza habitual, sua pochete de “homem cordial”, sua polidez desenfreada; antes de parecerem uma cápsula deixam transparecer certa dose de indefectível ingenuidade. Agradeçamos a Jah por isso!

Toque 2

Amanhã, dia 2/11, às 16h, no programa Do Nosso Jeito, apresentado por Fernanda Lago, Ellen Soares e Renato Jr., na Rádio União FM, 106,3MHz, este blogueiro conversará sobre “Uma crônica e um punhado de poemas de amor crônico”. Explico: os poemas da (s)obra foram por lá lidos e cartas de amor começaram a chegar na rádio. Em tempo: a rádio é do município de Raposa, não se escuta aqui em São Luís.