Arquivo mensal: setembro 2005

Rebelião independente: as zonas de Ademir Assunção

[texto nosso publicado no Caderno Alternativo, d’O Estado do Maranhão, sábado passado]

Rebelião na zona fantasma. Capa. Reprodução

São Paulo. Não sei porque, de lá espero sempre o caos. E ao contrário, por humilde obra do acaso – será? – nos chega algo doce, com sua pitada de acidez, mas belo enfim. Assim é o primeiro disco – de poemas – de Ademir Assunção. O jornalista e poeta nos chega em hora oportuna. Embalado pelos acordes de Madan, Ricardo Garcia, Mintcho Garramone e Luiz Waack – este último, ao lado de Ademir, diretor musical do disco.
“Rebelião na Zona Fantasma”. Nada de rebeldia sem causa. Talvez rebeldia na forma de se fazer o disco. Foram quase dois anos entre a gravação e o resultado final, com que nos deliciamos agora. Sem grana. Vontade, tesão. Paixão, amor. Paulo Stocker desenha as artes do disco, capa, encarte. Resultado condizente. “E ainda dirão que somos lunáticos / até o céu começar a cair”, anuncia Ademir, no fundo da caixa do fino biscoito.
Edvaldo Santana e Zeca Baleiro em participações especiais. Os três – eles mais Ademir – se admiram mutuamente, o que gera a cumplicidade/sinceridade necessária para o belo resultado. “Poesia’n’blues, outono ~ 2005”, a contracapa informa. O blues predomina, é verdade. Mas há espaço para outras cores/sons/sabores/imagens. Dessa “Rebelião” esperem tudo: menos tédio e monotonia.

ZONA BRANCA

Meu primeiro contato com Ademir Assunção se dá com Zona Branca (Editora Altana, 2001). De lá, sempre lembro da “Anti-Ode aos Publicitários (De um Guerrilheiro Morto em Combate)”:

“querer eu quero
que vocês morram

sufocados em nuvens
de inseticidas

talvez limpóis, bombris
e bemdefuntos

como baratas que comem
as próprias patas

olhos vendados
com vendas garantidas

e uma estaca
cravada no prepúcio

assim eu possa
propagar em outdoor

a dor de um jovem
promissor e sanguessuga:

aqui jaz um bom rapaz
cuja vida se reduz a um anúncio”

E uma nota explica: “Poema especialmente dedicado aos publicitários que usaram a imagem de Ernesto Che Guevara (morto por balas de metralhadora, no meio da selva boliviana) em anúncio do detergente Limpol, no ano da graça de 1.998.”
A partir deste, e de outros poemas do Zona Branca, comecei a (tentar) acompanhar mais de perto a obra deste bom rebelde. Sobre ele, escreveu Glauco Mattoso, na contracapa daquele livro: “Sei que um poeta nunca se completa, mas Ademir Assunção caracteriza o poeta que poderia ser chamado de completo, no sentido dos sentidos: tem olhar oswaldiano, ouvido de músico, tato psicossocial, faro jornalístico e paladar tipicamente brasileiro, embora globalmente antropofágico”.

OS OUTROS BÁRBAROS

Recentemente, Ademir Assunção aprovou e realizou, pelo Itaú Cultural, o projeto “Os Outros Bárbaros”, que promoveu, em São Paulo, quatro noites com oito shows de poesia e música. Oito poetas próximos, mas com linguagens peculiares entre si, tanto na palavra escrita quanto na falada ou cantada. Entre eles, o maranhense Celso Borges, radicado há tempos em Sampa; ele que também teve uma experiência interessante ao mesclar poesia, música e fotografia em seu “XXI – poemas de celso borges” (2000).
Casa cheia em todas as noites, “provando que poesia é uma coisa viva para vivos”, como bem escreveu o próprio Ademir em seu blogue.

LITERATURA URGENTE

Ademir Assunção é o que podemos chamar de multiartista. Ou nestes tempos, artista multimídia. E é ainda um “militante literário”, um dos escritores que encabeça o Movimento Literatura Urgente, que prevê a formulação de políticas públicas para o fomento à criação literária.
O movimento recentemente foi alvo de infundadas críticas da Revista Veja, na pessoa do jornalista (?) Jerônimo Teixeira, logo apelidado por Marcelino Freire – outro agitador liderança do movimento – de “Jerônimo, o matador”. Mas ele sequer feriu alguém, com seu discurso inflamado de preconceito. Ainda bem.

REBELIÃO NA ZONA FANTASMA

“escapo com vida
desconverso
verso escrito a sangue
desapareço
quanto mais
menos
me pareço
eco de bicho homem
ego sem endereço”

Os versos de “Escrito a Sangue” traduzem bem o espírito do disco. “De tudo o que se escreve, aprecio somente o que é escrito com o próprio sangue”, já disse Nietzsche; se vivo fosse e o ouvisse, com certeza gostaria do disco. Ego sem endereço, que a obra deve ter vários: ganhar mundo. O povo precisa de poesia, que nem só o corpo vive de alimento.
Quando Reuben escreveu sobre o disco em seu blogue, fiquei imediatamente curiosíssimo por ouvi-lo. Ele que, após o citado Zona Branca aumentou ainda mais o meu interesse por Ademir, sempre elogiando a obra do amigo – eles já andaram se encontrando em idas do maranhense à São Paulo. Agora que o ouvi, que o ouço, que o ouvirei sempre, digo: expectativas superadas. E Reuben disse tudo no texto dele (procurem naquele endereço, “Pedalando uma velha calói eu procuro a Zona Fantasma”). Mas tudo, quando se trata de Ademir Assunção, é pouco. Muito pouco. E este texto aqui é nada.

SERVIÇO

O quê: CD “Rebelião na Zona Fantasma”
Quem: o poeta, escritor e jornalista Ademir Assunção, com participações especiais de Zeca Baleiro e Edvaldo Santana
Onde: pedidos podem ser feitos pelo e-mail zonafantasma@uol.com.br
Quanto: R$ 25,00, frete incluso.

Mais um poema (?) sobre fim…

 

nosso último encontro
resultou em óbito

estou morto
e só agora percebo
o quanto fui patético

***

“Bota aquela música do ‘olho no espelho’; é a seis”
Andrew (lê-se “Êndrio”), sete anos, enteado de meu irmão, um meio-dia desses, depois de ter ouvido uma única vez o disco “Rebelião na Zona Fantasma”, de Ademir Assunção.

Para Fada Jane

 

Fico devendo um poema pelo aniversário de São Luís. É o “Patrimônio Cultural Profano”, de Cesar Teixeira. Por enquanto, um trecho de Vital Farias, em homenagem à Jane Maciel, que foi fazer intercâmbio na França e fica um ano por lá. Um beijo e saudades.

Caso Você Case (trecho)
Vital Farias

“É necessário tudo, mudo, surdo, absurdo
é necessário nada, fada, fanada, nada em fá
é necessário nada, tudo, mudo, surdo, absurdo
nada em fá-fazer”

Eu e Marco Pólo, de novo, e muito +

 

Provavelmente só volto ao blogue na sexta-feira. Tô precisando arrumar umas coisas no micro de casa e só tô blogando do trabalho. Mas, enfim, não sei, talvez apareça antes por aqui. E então, vamos à programação da 3ª Semana Cultural do Desterro:

7/9, quarta
manhã e tarde
= oficinas e exposições (Sede da Flor do Samba, CEDUC, Convento das Mercês e Fundação Dilú Melo)
20h = sessão de cinema II (Sede da Flor do Samba)
21h = Projeto Bumba Cultural: relançamento de “Uma crônica e um punhado de poemas de amor crônico” e “O segredo de um mistério”, com performances poéticas, teatrais e musicais. (Bumba Lanches, em frente ao Convento das Mercês)

8/9, quinta
manhã e tarde
= oficinas e exposições (nos mesmos locais do dia 7)
20h = procissão dos Orixás: culto afro-religioso e feira de comidas típicas e artesanato (Largo da Igreja do Desterro)

9/9, sexta
manhã e tarde
= oficinas e exposições (local: ver dia 7)
18h = show “Santos de Casa II”, com teatro infantil, roda de capoeira, Banda do Bom Menino, Chico Serra, Nato Araújo, Rogéryo du Maranhão, Grupo Foliões, Dança Portuguesa Rainha de Portugal, Chiquinho França, Josias Sobrinho e Daffé (Praça da Flor do Samba)

10/9, sábado (encerramento)
17h
= passeio turístico pelas ruas do Centro Histórico (rua do CH)
18h = show “Santos de Casa III”, com teatro infantil, roda de capoeira, Moisés Nobre, Coqueiro da Vila e Bateria da Flor do Samba, Bloco Tradicional Os Feras, Barriquinha, Arlindo Pipiu, Cesar Teixeira e Cacuriá de Dona Teté

+ 3ª Semana Cultural do Desterro

 

Segue…

amanhã, terça, dia 6/9:

manhã: exposições (Sede da Flor do Samba, CEDUC, Fundação Dilú Melo e Convento das Mercês);
16h: oficinas (idem);
18h: Rufou Tambor II (tambor de crioula na Praça da Flor do Samba);
19h: Teatro em cena, “De volta ao passado” (Largo da Igreja);
20h: Jogos Abertos do Desterro, Torneio de Damas (Sede da Flor do Samba).

E pra quem perdeu

o lançamento dos livretos “Uma crônica e um punhado de poemas de amor crônico”e “O segredo de um mistério”, há um mês, durante a reinauguração d’A Faustina, pode participar dia 7/9, às 21h, no Bumba Lanches (em frente ao Convento das Mercês), dentro da programação da 3ª Semana Cultural do Desterro.

E por aqui vou ficar avisando o que tá rolando, assim, devagar. Outros assuntos, em breve, espero.

Tá rolando!

 

3ª Semana Cultural do Desterro. E estivemos lá, na Missa em Ação de Graças, hoje pela manhã. E, em seguida, no Café da Manhã Comunitário, na Sacristia da Igreja, provavelmente a mesma onde Chico Maranhão gravou, em 1978, o clássico Lances de Agora.

Amanhã: exposições e oficinas pela manhã e tarde. Às 15h, Jogos Abertos do Desterro: vôlei e queimado (feminino), na quadra anexa à Sede da Flor do Samba; e às 20h, Sessão de Cinema, na Sede da Flor do Samba.

E mais sobre a programação por aqui, em breve.

Porque te amo

 

Meu amor.

Hoje, acordei encapetado. E me ganiu, profunda, alta, uma vontade de brigar contigo, te chutar a barriga, sua marafona engalicada! Vontade, não: gana. Urrar e vomitar sobre você. Você e tu. Mijar na tua cabeça, tronco e membros, te socar contra a parede, te fazer sangue. Ao te beijar ficou perdido de amor é o cacete. Pelas manhãs tu és a vida a cantar é uma pinóia, uma ova, uma bosta. A tua cara decadentosa parece o mapa do Chile, estrepe velho, tralha, cadela arrombada, esmerdeada, meu horror.

Mas és para ser entendida só por aqueles que não tiveram dinheiro nem para comer um prato feito. E, isto sim, é a pior das sacanagens.

E eu te bato porque te amo.

[João Antonio num pré-algo em “Ô, Copacabana” (1978). Notas do blogueiro: 1) comecei a ler JA por influência de outro João, o Paulo Cuenca; 2) a citação ao Chile no texto nada tem a ver com a goleada brasileira de hoje à tarde; e 3) o título aí é do post, já que no livro o texto não o tem.]

Das Cinzas à Paixão

 

Mais Cesar Teixeira, presença importante e constante por aqui. Letra de música sobre “fim”, apesar de eu estar, digamos, numa fase de “(re)começos”. Esse samba tá no disco de estréia de Serrinha e Cia.

Para Chico Piancó, Flaésia e eu mesmo

Não, não é proibido
um peito ferido
cantar sua dor
sei que o teu carinho
é um espinho e machucou.

Só fez derramar no chão
este copo de ilusão
em que eu me embriaguei
riscou meu vinil
meu peito se abriu
não sei o pranto que chorei.

Nunca mais o meu fracasso
será seu elevador
não quero ser o palhaço
de um circo que incendiou
meu pranto apagou
a chama sem querer
das cinzas
espero uma nova paixão renascer.