Homens de bem (?) *

 

por Paulo César Carbonari **

Facilmente ouve-se: “é um absurdo desarmar ‘homens de bem’ e deixar bandidos e marginais armados até os dentes”. O (pseudo)argumento mobiliza. Pensemos: existem “homens de bem”?

“Homens de bem” não existem, simplesmente porque não existem “homens de mal” (ou do mal). Ora, pensar assim é fazê-lo de forma maniqueísta e resulta na simplificação dos dilemas ético-morais. É por demais redutivo compreender a violência e seu enfrentamento com uma saída tão funcional, advogando o não-desarmamento (ou, o armamento) como forma de proteger “homens de bem”.

Ítalo Calvino, em “O Visconde Partido ao Meio” (Cia. das Letras), com a figura do visconde dimezzato, indica quão insuportável é conviver com o absoluta e completamente bom e quão divertido é conviver com o absoluta e completamente mau e que, qualquer das alternativas, não faz mais do que atazanar a vida de todos.

É estranha a defesa da permissão para que “homens de bem” possam se armar como recurso de proteção.

Armas são instrumentos cuja finalidade é a produção de ferimento ou morte. Armas são feitas para isso. Sua perfeição está em cumprir bem sua finalidade. Um fabricante de armas precisa agir como Pedroprego, personagem de Calvino, e fabricar armas perfeitas em sua finalidade.

Armas não tornam humanos mais humanos. Como objetos da técnica, não têm finalidade prática. Confundir a finalidade dos objetos (poética) com a finalidade dos humanos (prática) é confundir regiões da racionalidade humana. Seria como esperar que um objeto que cumpre bem sua finalidade pudesse, pelo seu simples uso, tornar mais perfeito o agente de seu uso.

Como esperar que objetos feitos para produzir o mal possam tornar “homem de bem” quem os utiliza? Ora, dirão, mas a finalidade do uso da arma é para produzir o bem, ou seja, proteger o agente que a utiliza, seus entes queridos, seu patrimônio. Isso leva a um imbróglio ético ainda maior.

Esperar que o bem buscado pelo agente que usa a arma pode ser alcançado mesmo quando os meios empregados para sua consecução são maus é confundir fins e meios, justificar meios, qualquer meio, inclusive meios maus, em vista de fins. A tortura perfeita, buscada por Pedroprego, ilustra bem em que isso se traduz.

Votar no Referendo sobre Desarmamento é fazer escolhas éticas. Afinal, enfrentar a violência exige recompor as bases de sociablidade e de interação. Uma sociedade que quer ver controlada a violência precisa se repensar por dentro, refazer-se por inteiro, preferencialmente evitando maniqueísmos e instrumentalismos.

* Publicado no Jornal Zero Hora (Porto Alegre/RS) em 23 de setembro de 2005, p. 17.

** Paulo César Carbonari é professor de filosofia no IFIBE, Passo Fundo, e Coordenador Nacional de Formação do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH).

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