ESPARADRAPOS CULTURAIS

por Joãozinho Ribeiro (*)

 

Fora de combate!

Aproveitando uma expressão muito própria utilizada pelo camarada de vida & arte, César Teixeira, assim passei a última semana do janeiro último, que se estendeu a toda temporada carnavalesca, acometido por uma inflamação no peito do pé esquerdo (logo esse!), de origem então desconhecida, cuja dor ia da titela até o pensamento.

Custaram-me caro a peça e a paca: a ausência em importante atividade agendada para o V Fórum Social Mundial de Porto Alegre, que tinha por tema específico “O Fazer Cultural nos Municípios: criação, mobilização e economia solidária”. Só pelo título, imperdível. O convite me fora gentilmente enviado, ainda no início de dezembro de 2004, pela Secretaria Executiva do Fórum Intermunicipal de Cultura, responsável pela organização da referida atividade.

Talvez tenha sido o único encaminhado ao Maranhão referente a tão relevante assunto. Mais ainda, por ter sido esta edição do FSM a mais simbólica e marcante de todas já realizadas, considerando o grande momento de efervescência política, econômica, social e cultural a que se encontra submetido o Planeta, o País e o nosso sofrido Estado: eleições no Iraque ocupado pelas tropas americanas, na Palestina pós Arafat; Bush eleito para um segundo mandato; 2 anos de governo Lula; a fúria das águas do Tsumani; o papa moribundo; 60 anos do martírio dos judeus na Polônia invadida pelas tropas nazistas; a possibilidade de implantação de um pólo siderúrgico na cidade Patrimônio Cultural da Humanidade; a guerra aberta e declarada entre o clã Sarney e o governo Zé Reinaldo; as eleições para as presidências da Assembléia legislativa do Maranhão e para a Câmara dos Deputados, o fenômeno Severino, etc.

Aproveitei estes dias no “estaleiro” para iniciar a feitura de uma série de artigos intitulados “Esparadrapos Culturais”; imbuído do sincero propósito de provocar alguma luminosidade neste cenário de apagões da Cemar e de completa miopia política, acentuada pela artificializada contenda maniqueísta entre os “do contra” e os do “a favor”, os “do bem” e “os do mal”, ofuscando qualquer tentativa de participação inteligente dos nossos mais ilustres jornalistas, artistas e intelectuais, quase todos calados, sem nenhuma manifestação sobre estas questões que integram o nosso cotidiano, onde nem tudo, necessariamente, é carnaval.

Escusam-se de fazer uso daquilo que respeitáveis pensadores, tanto da esquerda quanto da direita, mesmo nos momentos dos maiores cataclismos sociais, nunca abriram mão: a liberdade de pensamento, através da crítica ao adesismo oportunista e à unanimidade emburrecida. Assim na Rússia stalinista, na Alemanha nazista, no Brasil Getulista, militarista e lulista; no Maranhão vitorinista, sarneysta e , agora, reinaldista???

A perda da capacidade crítica se manifesta principalmente nos editoriais dos matutinos e nos respectivos “espaços alugados” das demais colunas, colocando em xeque a tão invocada “liberdade de imprensa” (ou dos donos da imprensa?). Honrada exceção, ao lúcido artigo do amigo João Bentivi, publicado no JP, de esmerada lucidez, intitulado “Água benta não mata vampiro”.

Na área cultural, algumas boas novas iluminam o cenário de 2005: Em Cururupu, o poeta Feitosa, assumindo o órgão de cultura municipal, inicia a gestão dando uma excelente lição de democracia, amiga inseparável das administrações culturais bem sucedidas, realizando o I Seminário de Cultura Popular do município, dando espaço para os cidadãos da arte e da vida da localidade construírem coletivamente um programa decente de cultura para a cidade. Em âmbito nacional, destacamos a abertura do I Seminário de Políticas Públicas para as Culturas Populares, nesta 4ª feira (23/02), uma iniciativa da Secretaria de Identidade e Diversidade Cultural, da Fundação Palmares (ambas do Ministério da Cultura) e do Fórum das Culturas Populares.

Uma delegação com 45 representantes maranhenses, escolhidos durante a oficina realizada em dezembro de 2004 no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, partiu de São Luís com a responsabilidade de defender as propostas que foram democraticamente formuladas e aprovadas no seminário-oficina acima mencionado. Algumas cidades do interior do Estado também enviaram representantes, como é o caso de Pedreiras, Caxias, Guimarães, Mirinzal … Pena que os órgãos de cultura do Estado e da maioria dos municípios, São Luís entre eles, não tenham se empenhado o suficiente para tornar essa discussão mais democrática e representativa, inclusive alvo de muitas reclamações pela falta de informações aos interessados (artistas, grupos folclóricos, pesquisadores, etc.)

No final das contas, merecem ser louvados os esforços de Maria Michol, da turma do Minc, do Fórum das Culturas Populares/RJ, da direção do Teatro José de Alencar/CE, que aqui estiveram, colaborando com as discussões, e o pessoal do Instituto Pólis/SP, que elaborou a metodologia aplicada nas oficinas. De bom alvitre, seria que a nossa delegação aproveitasse o evento para participar o máximo dos debates, e não transformar a oportunidade num convescote turístico.

De lamentar, a ausência do Maranhão, que tem a única capital fundada por franceses, na programação cultural do projeto “Ano do Brasil na França”, objeto de críticas bem construídas pelo violonista João Pedro Borges, um dos maiores expoentes da nossa cultura, dentro e fora do país. Mais uma vez venceu a miopia cultural e a falta de sensibilidade dos nossos gestores, que não conseguiram, ou não quiseram, compreender a grandiosidade do evento para a oportuna divulgação dos nossos encantos turísticos e das nossas mais expressivas manifestações culturais.

Sem planejamento e transparência, nunca haverá esparadrapo capaz de remendar as camisas puídas das gestões culturais divorciadas dos sujeitos da cultura e das suas respectivas produções, tão festejadas pela mídia e pelos governantes, que chegam a confundir as suas caras com a cara da cultura do Maranhão, no afã atabalhoado de legitimarem as suas respectivas administrações.

 

(*) poeta, compositor, professor da disciplina Propriedade Intelectual do Curso de Direito da Faculdade São Luís, membro do Fórum Intermunicipal de Cultura e da Rede Artistas em Aliança para um Mundo Responsável, Plural e Solidário.

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